
os dragões não conhecem o paraíso
"...e essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.
Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante."
Caio F. Abreu
free as a bird
Can we really live without each other?
vem aí, bom tempo

(t)here
eu não vou estar sempre aqui.
você já não esteve várias vezes.

pesado
caminhar vagaroso
que mais lembra um monstro azul, de manchas na pele, com inúmeros tentáculos
esbarrando pelo chão
e esbarra na mesa, pede passagem
ou anda, ou respira
tem olhos engraçados de uma tristeza métrica
dentro do coração, plumas de ganso
revira, mas volta (sem fim)
uma ideia de não falar das coisas. (bem antes de ideia não ter mais acento)
de entrar nos seis meses dos ursos, e achar que sonho é realidade.
logo eu, que sempre falei e refalei daquilo que mais me importava.
e aí, eu me vejo calada, ouvindo e ouvindo e quase nada mais fazendo sentido.
e aquela explosão que sempre me vinha? e as idas e voltas que me faziam respirar e ver como a vida é linda, que tudo valia a pena, inclusive (principalmente) o amor?
existe uma sensação de perda da identidade e do real respirar.
uma sensação de que tudo passa e você fica vendo, observando, analisando e que aquilo não é verdade.
não deve ser verdade.
não pode ser.
uma saudade de expor e sentir as energias se renovando.
tudo se repete, meu deus. inclusive, o tédio.
fazia tempo que não voltava a escrita para mim.
quase tinha esquecido.
mas é bom (re)sentir que algumas coisas são suas, para sempre.
e isso ninguém pode tirar de você.
tsé tsé

amor indigesto
(re)fluxo.
há dias que a gente se sente
tudo que me vem à boca, volta.
eu penso sempre em coisas geniais (para mim)
e não falo por preguiça, afeto ou medo.
geralmente, por afeto. quase sempre por preguiça. e muito por medo.
mas aí, tem coisas que vem, e pulam.
disparam, saltos ornamentais e piruetas. vômitos, também.
tem coisa que não dá pra segurar e, explode. independente.
longe da sua mão, do seu ouvido, do seu espelho.
e aí, amigo. só resta chorar ou resignar.
de resto, nada adianta.
glub glub
ciao
pode ser falta de costume, até vontade.
mas o que parece é que existem dois vazios.
um meio cheio, outro meio vazio
e os dois estão prestes a transbordar.
chuaaaaaaaaaaaaa
travessia
a cada ida e volta, revejo
todos os dias, respiro, tenho um pensamento de morte e outro de vida
- filho da puta!
escuto milton, e ele me cura
deixo andar, olho pro lado, e retorno:
- podre, você podre.
sinto pena e penso que ninguém merece sentir pena de ninguém.
e penso que o dia mais feliz foi quando,
descobrindo atalhos, eu me descobria
e no final da rua, correndo de um cachorro, eu descobria a casa dos meus sonhos.
sem mar, sem praia, sem sal. um bloco de concreto,
e eu, cantando...
milton.
crença
e depois de passar dias e dias
não sabendo se há começo ou fim,
cresci:
só milton sabe o caminho.
amém.
mato.
mato, com um barranco perfeito para um esconderijo.
matos mortos. vacas e cogumelos e uma escola inabitável.
depois, barulhos d'água. uma cachoeira no meio do nada, pinheiros e um rio caindo, puro - pra mim.
uma cachoeira que não pára de cantar e de chamar pra tomar banhos em águas frias.
pedras e uma desconfiança de que tudo que passa é vida.
e que é preciso estar atento, nem sempre forte.
apesar d'eu gostar mais de paisagens cinzas e tristes. a morte não é nada que combine com isso.
o sol queima mas não me favorece. atenção!
violets for your funeral
sendo assim, passo noites acordada mesmo tendo que preparar café logo cedo.
não penso em roupas, nem faço aquelas velhas listas que costumava fazer, tentando domar meu dia.
simples, porquê amanhã não sei se vai fazer chuva ou sol. e ninguém se sente muito preparado em determinar nada quando não consegue nem escutar o tempo.
depois de três ou quatro horas de sono, e barulho de trânsito ao acordar, tenho duas esperanças:
1 - ele há de me deixar em paz;
2 - cobra, 1633, no jogo do bicho.
ainda não decidi de qual me faço, aos opostos.
sendo cobra ou pavão, no final das contas, não importa - a carne não presta.
lado p, de pensamento
vômito.
dá vontade de vomitar, quando me lembro.
não gosto de nada que misture leite e suco de maracujá doce.
boas camadas de leite até você encontrar o maracujá. e às vezes nem encontra.
que quando foi, já sumiu.
uma preocupação tremenda se o marrom combina com o branco. e eu ando pensando que preto é a cor ideal pro verão.
tenho inveja de quem tem as estações como parâmetro de diferença. uma vida a cada outono. ou um sapato, um casaco, uma blusa, um sabonete de pitanga ou de erva-doce: depende da estação. há três anos, tenho dois anos a cada idade. e isso não significa que as coisas estejam mais fáceis. seja inverno ou verão, meu closet continua frio.
uma tristeza camuflada em alegria. grande wado.
ou, grande filosofia cristã.
uma prisão a cada dia.
e essa prisão tem cachorro, porta pra rua de pedra e uma vista linda, pra quem vê.
coisas soltas, num pensamento que se repete, desde a tarde, pensando: que acabe logo, meu deus. que acabe.
não é sempre que o amor se resume num ponto de vista
ainda que estragar tudo seja minha melhor qualidade, vou lá e me sento:
vamos, diga, me fale. olho pro olho, pro nariz, pra ruga na testa, a lágrima no olho, tô vendo, ein?
'ô, minha criança'
como diria aquele menino das Olindas (todos os meninos das Olindas tem ladeira nos olhos).
eu escuto, internalizo, sem analisar muito... mas o que eu escuto parece aquela música yesterday's dreams, que eu não sei de quem é, mas que eu ouvi e gostei.
olhe... tudo que ouço parece me falar de solidão. tempo, paulinho no meio e marina lima. sem ressentimentos.
tem um mar na minha frente, uma ventania, areia no olho e essas coisas nada poéticas, e eu só consigo pensar em itamar cantando ora, ora, meu bem...
dê licença, mas
isso de licença poética é tudo uma grande mentira mesmo.
Poesia às 17h na Rua da Harmonia
andei quilômetros até achar um café
todas as ruas estavam desertas
quando se caminha por cidade que não se conhece
as pessoas se escondem
e as ruas se quebram em becos e vielas, algumas sem saídas
como se dissesse:
- Perca-se, para depois achar-me.
até que, certa hora, todas elas se revelam
naturais, parecendo que sempre estiveram por ali.
e o desavisado encanta-se
com o cheiro forte de café a cada esquina
com o frio do final da tarde
e com o gosto agridoce da solidão.
Instruções para Cantar
Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz
para Julya
uma casa de primeiro andar, poucos cômodos e poucos móveis.
paredes brancas contrastando com uma vermelha, no fundo.
poucos livros, que o que é próprio a gente guarda pra si, e uma estátua grande, de gata, talhada em madeira, de pé.
um quintal com cheiro de hortelã e flores pequenas.
cortinas claras, talvez verdes.
e tereza sentada na sala, entre almofadas, tragando fumo de maçã no narguilé.
tereza levanta, solta o livro, e imagina-se entrespelhos.
ensaia uns passos soltos
enquanto solfeja cores e gostos com a voz.
Sonoro sereno
serena garoa
pela madrugada não faço nada que me condene
a sirene toca bem de manhãnzinha
quebrando o silêncio sonorizando a madrugada
passa o automóvel na porta da fábrica
o radinho grita com voz metálica
uma canção
sonora garoa
sereno de prata
sereno de lata
reflete o sol bem no caminhão
Instruções para chorar
Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança.
O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mocos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente.
Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto resulta-lhe impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou em esses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca.
Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro.
As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência em um canto do quarto.
Duração média do pranto: três minutos.
depois de descobrir-se estranha e sozinha,
tereza resolve doar-se a qualquer dessas causas sociais
volta pra casa, prepara um puxado de ervas
toma chá com bolacha água&sal
e tenta resolver questões de 1-9, horizontal e vertical
vez ou outra pensa no que precisa resolver no outro dia:
- pegar exames no laboratório de esquina
- encomendar bandeirinhas pra festa de são joão da creche
- comprar a nova edição de marieclaire, uma casinha pra futura gata
- pagar conta no armarinho de seu maurício
- fazer compota de extrato de tomate
- arrumar a sala de visitas, colocar água nas plantas
- aprender a chorar.
vinte e dois
jantar romântico, sem velas ou incensos
só um crepe com aquele molho mustarda dijon misturado com o molho bechamel
elis como trilha, mais pelo meu momento do que pelo clima
as vassourinhas na bateria, coisa mais brega
eu não te quero, eu te quero mal
eu tenho mais de vinte anos
o presente é rock'n'roll e o futuro é blues
fumar um cigarro com a cara blasè
depois que me disseram que eu sou forte
feito pedra e eu acreditei
águas e rios ficaram pra trás, simples né?
já é abril
e eu continuo procurando verdades nos olhos que me cruzam
eu tenho mais de vinte muros
mas é isso aí
a vida, pela frente ou por trás, é nóis.
you gave me the word, i finally heard
quatro anos e quatro encontros.
e quatro nem é um número do qual goste tanto.
eu leio sempre, e quando leio, encontro vírgulas e fico encantada.
chico hoje me emocionou com à flor da pele
e eu fiquei pensando no medo, e nas relações mornas,
nos homens horizontais, aquele do qual eu falava ali embaixo.
e eu podia vir com palíndromos - como chico viria - mas não precisa nem ser mosca pra morrer afogado num prato de sopa.
eu leio tudo e me encontro. às vezes, transfomada em outras, determinados momentos.
penso em mil presentes e carinhos, sabendo que o tempo, vá lá, não tá mto do meu lado.
a espada me assusta, mas não deixa de ser uma força que me aproxima.
chove rios, tietes e capibaribes. e eu, vendada, penso em você.
recado para mim mesma (e para todos)
eu gosto sempre mais de pessoas verticais
de horizontal, já temos a cama
bilhete eletrônico
tem sempre os momentos da vida em que o tempo parece parar
como naquelas cenas de filme em que a velocidade da narrativa é maior do que a velocidade do mocinho e/ou bandido
é um blábláblá sem fim de coisas desinteressantes e o pensamento longe na cidade de ângulos frios
o tempo pára - as conversas, as pessoas, o trabalho, os amores expressos
(ou tudo anda e você continua na mesma rotação)
o tempo não é mais tempo
o tempo, agora, é uma espera
pro que só se sente e não se sabe.
estudo para o amor

teu tum
teu violão desafinado,
e minha falta de paixão.
e no meu descompasso passa o riso dela
encontro alice em toda esquina, perdida, olhando pra cima ou pra baixo - dependendo do humor.
encontro alice falando mal das luzes de natal e agradecendo a desconhecidos garçons de bares ruins.
encontro alice com as mãos nervosas, depois de fumar o último cigarro do minuto. mãos trêmulas.
encontro alice falando de coisas com propriedade e esquecendo o nome-principal do desenrolar da história.
e vejo, depois, o sorriso envergonhado, o olho sorrindo junto e a gargalhada no final.
eu toco alice, quando alice teima em tropeçar, fingindo estar bêbada e aproveito para cuidar dela, quando ela realmente está.
eu gosto quando alice começa músicas estranhas, que eu não conheço, e, principalmente, quando ela cantarola a melodia porquê não se lembra da letra.
eu gosto do esforço de alice em gostar de animais, apesar de quase nunca isso dar certo.
eu invejo a disposição de alice para os assuntos mais chatos. e para as pessoas também.
se bem que, alice, às vezes, é também abusada.
alice gosta de verde e vermelho, mas tem poucas roupas dessa cor. ela diz que é almodovar.
alice detesta marrom, e é a cor que mais usa. ela acredita quando dizem que alguns brasileiros são tons pastéis.
a cadela de alice se chama poema, e, se ela tivesse uma gata, ia se chamar poesia.
alice é brega, e às vezes, queria se chamar rosa e ser cantora de fado.
encontro alice repetindo que tudo vai dar certo. tudo vai dar certo. tudo vai dar certo. tudo vai dar certo.
eu acredito em alice.
(translator, please)
ou a esquizofrenia das línguas
smiles and cariños.
bisous, while nous parlons sur caetano.
sorrisos and personas dulces, c'est qui nous sommes.
je te ensinei a parler de carnival et l'amour on ma language.
and après, we all say à bientôt.
¿que tal? c'est pas mal.
mal do século
correcorrecorrecorre
respiracorreandacorrehardcore
bufapuxaestufacorre
assopracobrasonhaedorme
puxaesticaencolhe
assim não dá,
assim não fode.
isso de querer falar da vida em metáforas ainda vai nos levar aquém
é como se tudo parasse um instante e eu fosse caminhando por entre as pessoas, observando reações e relações.
desvio do homenzinho do vinho, da mulher japinha que sorri igual a mim e da falsa-hippie que já quis ser minha amiga.
como se eu tropeçasse num cigarro ainda aceso e ele fosse do tamanho de uma pessoa boa, mas que ainda assim me queimasse.
e eu ainda caída, saísse deslizando e deslizando pelo chão. até levantar e abraçar um menino que faz cara de 'posso falar muito sobre tudo' - sobrancelhas semi levantadas, sorriso pequeno no rosto e o dedo indicador mais sobressalente que o resto.
todos paralizados. a música. parou naquela frase do Mautner, que fala de aeroplano. e no espaço-tempo, dá pra ver as ondas multicoloridas, prestes a entrar nos ouvidos e nos poros das estátuas - a música não pára.
como se eu caminhasse, e no final do caminho, desse de frente com uma varanda. cheia de plantas miúdas e pássaros empalhados - não deixa de ser triste.
e pulasse, e voasse, de braços abertos feito avião. fugindo, enquanto as estátuas voltam ao normal.
queda livre. que às vezes acelera e às vezes retarda.
agora tá acelerado.
seca
ama-seca
sangue escorrendo
fugindo
tingindo a pele
a veia árida
os olhos fundos
a lágrima
a postura curva
escondendo o feto
o sopro não sai
quase entra
ela pisa em pedras, espinhos
por onde caminha
descalça, a terra quente.
e ainda nem é sertão.
sobre quando a paz se tranforma em tédio (e vice-versa)
De repente, estou só. Dentro do parque, dentro do bairro, dentro da cidade, dentro do estado, dentro do país, dentro do continente, dentro do hemisfério, do planeta, do sistema solar, da galáxia - dentro do universo, eu estou só. De repente. Com a mesma intensidade estou em mim. Dentro de mim e ao mesmo tempo de outras coisas, numa seqüência infinita que poderia me fazer sentir grão de areia. Mas estar dentro de mim é muito vasto. Minhas paredes se dissolvem. Não as vejo mais, e por um instante meu pensamento se expande, rompendo limites num percurso desenfreado. Nesse rápido espraiar, meu ser anexa a si as coisas externas. O parque, as árvores., o sol, as gentes deixam de ter existência privada e, dentro de mim, estão sob meu domínio. Como membros de meu corpo, ou pensamentos já feitos ou palavras já formuladas -eles se aninham em mim, fazendo parte do meu ser. Me torno em parque, em árvore, sol, em gentes. O processo é tão breve que sequer tenho tempo de regozijar-me com ele. Porque subitamente tudo volta.
E sou apenas um homem no parque - reduzido somente a minha condição de homem no parque. Espio para fora de mim e vejo as coisas que não são mais minhas. As árvores debaixo das quais estou, esta folha que há pouco deslizou pelo meu chapéu, escorregou por ombro, atingindo a mão onde a esmago, esta gente para quem sou um homem no parque. Na minha mão o contato da folha ferida é áspero. Mas não fere. Frente a meus olhos: hirta, seca, amarelada, é uma folha do inverno. As ramificações se expandem em mil caminhos até as bordas, na tentativa já inútil de levar a seiva aos pontos mais recuados, e ela é uma coisa morta. O pequeno talo vibra entre meus dedos como um ser vivo e agonizante num último espasmo. Olho as pontas reviradas e, num gesto, torno a esmagá-la. Já não é folha, já não é nada -somente um punhado de poeira que escorrega incômoda manga adentro do casaco. No entanto, não sou um assassino: sou um homem no parque! quase grito para que as outras pessoas escutem e olhem para mim e vejam como sou inteiramente normal trivial banal e até vulgar dentro deste terno escuro, antiquado -preciso que tomem consciência do meu ser e preciso eu mesmo tomar consciência do que sou e do que significo nesta brecha de tempo. Por isso baixo os olhos e, subindo-os desde o bico dos sapatos, vistorio todo o conjunto que forma o meu ser em exposição. Calças, casaco, chapéu eu sou um homem no parque! Novamente quase grito porque a realidade de repente oscila, ameaçando quebrar-se em fatias que ferem. Apoiado em minha segurança, que se revela precária, eu luto. E eis que a luta finda. Eu cedo. Novamente as coisas se dissolvem e torno a escorregar para dentro de mim. Mas estar em mim já não é vasto. Minha extensão reduziu-se a este círculo acinzentado que é meu pensamento. Minha extensão é tão mínima que sufoco dentro dela. Tudo se resume a esta extensão. Não há mais nada fora de mim. Impossível a fuga. Meus membros se encolhem como um tecido ordinário, recém-levado, estendido ao sol. Tudo se comprime em torno de mim. Este círculo acinzentado apertando cada vez mais, repleto de arestas, de pontas aguçadas. Neste círculo estou em rotação. Meu ser vai girando, girando num lento corrupio, num movimento que é quase dança, quase ciranda. As arestas ferem leve, com jeito de carícia, as pontas apenas afagam enquanto o pensamento se esquiva, na esperança de sair ileso. Então tudo cessa. E volta o parque com suas gentes passando, com aquela série de coisas que constituem o ser de um parque. Acendo um cigarro, minha mão treme, devolvida à segurança que em relação às coisas de fora novamente se revela eficiente. Nas minhas calças, o pó da folha é a lembrança do crime sem júri nem juiz, nem poluição. A meus pés, o trabalho das formigas é intenso neste outono quase inverno, repleto de folhas caídas. A longa fila se encaminha lenta, desviando-se de meus sapatos, folhas equilibradas sobre as cabeças, ultrapassando os pés do homem a meu lado, as pernas vagamente tortas daquela mulher mais adiante, as meias azuis daquela adolescente. Até o formigueiro, onde as despensas devem estar abarrotadas. Mas as cigarras já não cantam. Tudo volta. Procuro retomar a meu último pensamento: tinha relação com infância e livro, eu sei. E busco. Por entre essa infinidade de formas, de signos desfeitos com que são construídos os pensamentos por entre esse amontoado de lembranças feitas de imagem incompletas como retratos rasgados; por entre essas idéias a que faltam braços, pernas, cabeças por entre os retalhos dessa caótica colcha de que é tecido o cérebro de um homem no parque, eu busco. Sem encontrar. A segurança das coisas fáceis e simples desliza entre meus dedos recusando fixar-se. E há o cigarro: essa tonalidade azulada é apenas a fumaça subindo em lentas espirais, cada vez mais densa, tomando conta de mim, eu sei, deve ser, porque as coisas não sendo o que são outra vez me jogarão num mundo de procuras e espantos. E de novo estou em mim. Ainda preso nas engrenagens do círculo. Que desta vez não ferem. Dentro da minha pequena extensão me são permitido o movimento e o investigar. Movimento e investigar vãos, porque é tudo tão ínfimo que nem há mistérios pelos cantos. Não há perspectiva na espera de serem pressentidas. Não há sequer vértices nesta superfície despida de arestas: só a leve chama, em aceno trêmulo por entre o vazio. Mas eu não quero. Seria preciso abdicar de todas as minhas verdades essas estrutura das lentamente, dia após dia, quase minuto a minuto, suavizando os contornos da realidade quando esta se torna áspera. Seria preciso abdicar de meu ser cotidiano, construído em longo labor. Seria preciso abdicar de minha segurança, e eu a acumulei em paciência em tédio, mas a fiz forte, e se agora periclita é porque todos nós temos o nosso momento de queda. E este é o meu. No vácuo de mim eu me despenco. Porque seria preciso também abdicar de mim mesmo para novamente reconstruir-me. Tornar a escolher os gestos, as palavras, em cada momento decidir qual dos meus seus assumir. Já esfacelei meu ser, já escolhi as porções que me são convenientes, esquecendo deliberado as outras. E são elas -serão elas? -que agora se movimentam revoltadas, pedindo passagem em gritos mudos, na ânsia de transcender limites, violentar fronteiras, arrebentando para a manhã de sol. O tremular da chama é um aceno, convite para chegar à verdade última e íntima de cada coisa.
Não quero. Não posso restar nu, despojado de mim mesmo. Não posso recomeçar porque tudo soaria falso e inútil. As minhas verdades me bastam, mesmo sendo mentiras. Não é mais tempo de reconstruir. Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver. Sôfrego, torno a anexar a mim esse monólogo rebelde, essa aceitação ingênua de quem não sabe que viver é, constantemente, construir, não derrubar. De quem não sabe que esse prolongado construir implica em erros, e saber viver implica em não valorizar esses erros, ou suavizá-los, distorcê-los ou mesmo eliminá-los para que o restante da construção não seja abalado. Basta uma pausa, um pensamento mais prolongado para que tudo caia por terra. Recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa única existência. Por isso me esquivo, deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam. queimar também destrói. Perplexidade, recusa e medo feitos em palavra fazem tudo recuar. O círculo abandona meus membros, a chama se apaga. A luta vai-se tomando lassidão. Revolta sufocada são rumores que abafo lentamente, com a delicadeza monstruosa de quem estrangula uma criança dormindo.
Eis que começo a voltar. Não de uma galáxia distante, de outro planeta, sequer de uma cidade ou um parque. De mim, volto. Em tomo as árvores principiam a ganhar consistência, negativo aos poucos revelado, água escorrendo da capa de obscuridade. São verdes, as árvores. Seus troncos nascem da terra, se alongam em braços recobertos pelas folhas que o outono amarelou. Troncos rugosos, feito de pequenos pedaços ásperos, de cor indefinida. Mas elas são verdes. Todos as vêem verdes, mesmo agora, com as folhas amareladas, com a cor-sem-cor de seus caules. O céu azul. Mesmo sendo cinzento ou incolor o ar que o faz. É preciso dar cor e forma às coisas porque desnudas elas apavoram.
Respiro. Fecho os olhos. O ar penetra as narinas abrindo caminhos pelo corpo num automatismo que não terá fim enquanto eu viver. Estou de volta. Minhas mãos sobre os joelhos, os joelhos cobertos pelo pano preto das calças, o pano afunilando até os pés metidos em meias listradas de azul e branco, dentro do marrom dos sapatos. Tudo me diz que estou de volta. Aceito. Suspenso no meu pulso, o tempo tiquetaqueia no ritmo do relógio. Onze horas. Preciso ir andando. Há mulher há filhos há trabalho há a prestação da televisão que passará um bangue-bangue legal e pensando como qualquer homem neste ou noutro hoje à noite e eu gosto de bangue-bangue como um menino gosta de sorvete metido no meu pijama de bolinhas nas minhas chinelas às quais se amoldam meus pés como dentro de uma fôrma e a minha poltrona funda e o cachimbo e o jornal do lado. Tudo tão simples. Já vi mil vezes cenas iguais em filmes e livros e revistas. Tanto e tanto que duvido delas. Mas dúvida faz escorregar. E no fundo, depois do longo deslizar, no fundo é Úmido e frio, apesar da chama. Faz-se necessário testar, apalpar as massas que recusam definições. Faz-se necessário avançar. Mas tudo impede o avanço. E dói.
Não.
E eis então que caminho para rua, chamo um táxi, entro nele. Eis aí que olho pela janela, vejo o parque, o banco, as pipocas que não comprei. Eis assim que encosto a cabeça no banco, apanho um cigarro e trago longamente. Eis depois que solto a fumaça de um jeito que não sei se é sopro ou suspiro. Eis.
Caio Fernando Abreu, Itinerário.
só licitando
irene preta, irene boa, irene sempre de bom humor:
ave, nego!
saudade danada de me esparramar na tua cama
e rirmos juntos dos nossos sonhos defuntos.
-- entra Irene. Você não precisa pedir licença!
clementina e o canto dos escravos
ontem à noite eu vi a lua na aurora e ouvi, sem nem querer, cantos pra xangô.
foi uma surpresa. eram três macacos, juntos, falando de lendas de nascimento da lua, morte, verdades e, principalmente, medo.
macunaíma.
eram grandes, acho que por isso falavam tanto de verdades e de medo.
depois teve outro que fez cantos pra são jorge, chamava oyá. Oyá como o rio, como Santa Bárbara.
e outro, índio, que entoava boiadas. foi muito bonito.
ontem à tarde, eu tive um sono gostoso e sonhei um sonho que era assim:
numa tribo africana, existia uma lenda em que as mulheres não podiam pintar ou raspar a cabeça
se assim quisessem, deviam deixar dois dedos longe do casco
pra não interferir na alma.
ontem nem era noite de lua cheia
mas parecia.
e hoje eu sonhei com clementina de jesus e com o mar.
água, muita água.
ontem, o nome do prédio era iemanjá.
deve ser por isso.
lamento de exu
as águas de agosto são o extremo oposto das águas de março.
eu abandono tom e vou pra baden e vinícius, apesar de preferir milton pra dias chuvosos. milton cantando travessia e aquela parte que fala em soltar a voz e seguir estradas.
dizem que baden comparou cânticos afros com canto gregoriano e resolveu fazer afrosambas. vinícius deve ter enlouquecido na época. acho que todo mundo enlouqueceu um pouco. devia ser agosto. agosto é mês de exu. e tem essa música que fala de lamento, apesar de não ter choros nem palavras. mas são lamentos, garanto.
aí os passarinhos vão embora: mandeira, pedra, pau; e fica a indecisão - vai, vai, não vou. e engraçado é que tem iemanjá no meio. eu sei que iemanjá é fevereiro, mas bem podia ser março.
janaína carregando tudo. e eu, afogada em águas.
e alguém cantando: xangô, meu senhor, saravá.
hoje é tempo de amor.
hoje é tempo de dor, em mim.
Xangô, meu Senhor, saravá!
as pessoas vêm me dizer que cu não é poesia.
eu falo do leminski, por mais insignificante que seja, e não me entendem.
e eu continuo brincando de 'geniais' contradições e frases que só têm graça para mim, para dois ou três gatos pingados;
me falam de referências e eu mando se foder.
depois de falar de cu, eu quero ver se foda não é poesia.
(sobre)peso
hoje eu tive a (boa) sensação de morte. da morte eminente e quase real.
mas não era morte estranha e súbita. era lenta e doia um pouco, porquê morte precisa de emoção e dor, afinal.
pensei em como seria e até ousei pensar em filosofias dignas de paulo coelho. me envergonhei.
os últimos, foram meses de muita morte. de gente que nem conhecia, inclusive.
que coisa essa de pensar e chorar na morte de desconhecidos, ein.
é como se chorássemos, aos poucos, a nossa própria morte.
aí eu fiquei pensando no que diriam as pessoas, no meu caso.
nas que nem ficariam sabendo, ou só saberiam depois de muito tempo e não teriam nem mais o que chorar.
nas que iam chorar e até fazer cena e pensar 'meu deus, tão novinha'. que coisa, né.
quando eu era mais nova, e uma criança da minha idade morria, diziam que virava anjinho.
agora eu tenho vinte. um pouco mais. e as pessoas da minha idade morrem, e o que dizem? não tem o que se pensar, né.
eu tenho uma amiga que diz ter certeza que vai morrer antes dos vinte e cinco. ela já tem vinte e três e ainda não mudou de idéia, que pena.
outro dia, uma outra amiga falou que acreditava em missões, e que ele devia ter descido somente pra ensinar alguma coisa a alguém. e o comparou a um anjo.
ele tinha vinte anos. um pouco mais. eu não sei se acredito nisso. mas, vai ver, existem anjos com um pouco mais de idade, belos garotões, rodando por aí.
no meu enterro, eu queria flores bem pequenas, coloridas e dizeres do tipo: 'amou a todos. e ainda sobrou um pouquinho pra si.'
brega, né? mas eu também posso mudar de idéia.
agora, deixa eu ir ali, terminar de ler revista, que isso tudo é muito peso pra assunto de início de agosto.
sssssssssssssh iado
no meio de nós, existem pessoas demais
de mais
de, mas
de más.
sete cadeiras e uma profusão de sentidos.
cinemás, fonemás, melodramás, poemás.
tudo pianinho, enquanto o resto explode.
ora bolas, que saco!
vou tirar os meios, as metades e os terços
e vou grudar em você.
eu não estou interessado em nenhuma teoria,
em nenhuma fantasia, nem no algo mais
nem em tinta pro meu rosto ou oba oba, ou melodia
para acompanhar bocejos, sonhos matinais
amar e mudar as coisas me interessa mais.
reversos
essa inércia frente ao teu corpo, trava.
essa trava rente ao meu corpo, enerva.
essa erva acima de todos, acalma.
tua alma. em uma constante espera.
